A Revolução Industrial: Berço do Consumismo Moderno e suas Implicações na Sociedade Contemporânea

A Revolução Industrial: Berço do Consumismo Moderno e suas Implicações na Sociedade Contemporânea

 

  1. Contexto Histórico

No decorrer do século XVII, o cenário europeu foi marcado por muitas mudanças sociais, econômicas e, principalmente, tecnológicas, haja vista que a primeira máquina a vapor foi construída e aperfeiçoada nesse meio tempo na Inglaterra, pelo Thomas Newcomen (1663-1729) e James Watt (1736-1819). Este foi o principal acontecimento que iniciou, assim, uma era industrial que se espalhou para toda a Europa e, posteriormente, ao mundo todo.

A Revolução Industrial estreou novas possibilidades para a sociedade produzir, o que resultou no setor industrial e em uma nova forma de consumir a produção, conhecido como “capitalismo industrial”. Esse marco teve como base os bens de consumo, sobretudo a indústria têxtil, e impôs melhorias aos meios de comunicação e transporte, o que possibilitou o progresso esses maquinários.

No início da grande mudança, os trabalhos eram feitos de maneira manual e até mesmo dentro das próprias casas, usufruindo apenas de alguns equipamentos próprios. Porém, ao longo do tempo, o desenvolvimento fluiu com muita rapidez e o que antes eram produções domésticas de pequena escala, logo aumentaram para concentrações em galpões com muitos trabalhadores, resultando nas iniciais “pequenas fábricas”, que propiciaram a granditude existente dos dias de hoje e a fabricação em larga proporção.

Quanto mais a manufatura ampliava mais eram criadas divisões trabalhistas para organização do sistema, além de novas categorias socioeconômicas como a burguesia (donos do capital financeiro) e o proletariado (trabalhadores), o que demarcou o capitalismo e as diferenças da época, perpassando até atualmente. Os investimentos capitais da burguesia e as novas invenções transformaram o ritmo de produção e o dia a dia das pessoas; a produção se tornou automatizada e foi reduzida a quantidade de trabalhadores por tarefa. Por conseguinte, a capacidade produtiva das empresas e indústrias aumentaram demasiadamente, alcançando um patamar de demandas excessivas e uma rotatividade muito grande de produtos novos e produtos considerados como  “velhos”.

 

  1. A Revolução Industrial: Início da Produção em Massa

Com essa crescente produção em larga escala, as fábricas se desenvolveram e multiplicaram, resultando em um alicerce para a modernidade e da criação e desenvolvimento de tecnologias. As produções artesanais do início do século XVIII passaram a ser uma junção entre operários e máquinas para aumentar a eficiência, além das inovações impulsionadoras, como equipamentos têxteis, telégrafos e locomotivas, que atraíram um aumento populacional significativo para as cidades, gerando uma urbanização acelerada.

Tal fato afetou substancialmente o ritmo de vida das pessoas, a rigidez dos horários de trabalho e as longas jornadas, criando uma nova rotina que levava de base a produtividade do emprego para a subsistência. As indústrias deslancharam a produção em massa, barateando produtos que eram considerados “apenas da elite”, o que democratizou o acesso ao consumo e, consequentemente, destrinchou e despertou o início do desejo desenfreado por produtos, o consumismo.

 

2.1. O consumismo moderno: produto da Revolução Industrial

O consumismo moderno é um comportamento típico do capitalismo e da globalização, sendo marcado pelo consumo excessivo (e na maioria das vezes não necessários) de bens e serviços, se ligando profundamente à “Sociedade do Consumo”[1]. Este fator acompanha a evolução social e o acesso crescente a novos produtos, por isso a prática de consumir tornou-se cada vez mais frequente e intensa e pode ser motivada por diversos fatores, como a busca por pertencimento e aceitação social ou até mesmo relacionado a respostas de transtornos, por exemplo, a ansiedade.

Figura 1 - Trabalhadores e a mecanização das fábricas.

Fonte:  Autoria desconhecida, s/d. 

  1. O Consumismo Moderno: Raízes Históricas 

3.1. Como a Revolução Industrial transformou a forma de consumo

Essa produção em larga escala permitiu que bens antes restritos, como roupas e utensílios, se tornassem acessíveis às classes média e baixa. A padronização dos itens e a produção em massa criaram um mercado abrangente, com produtos fabricados em grandes quantidades e uniformemente. O comércio também se expandiu, com novos canais de distribuição, como lojas de departamento e catálogos, alcançando um público cada vez maior.

Já os avanços no transporte, por exemplo, ferrovias e navios a vapor, facilitaram a distribuição desses produtos, permitindo que o consumo se estendesse de âmbito local para regional e internacional, conectando mercados e ampliando o alcance da produção industrial.

3.2. O papel da publicidade e do marketing na criação de novas demandas

Com a produção massiva gerando um volume crescente de mercadorias, tornou-se necessário criar demandas para evitar a saturação do mercado. Nesse contexto, a publicidade e o marketing surgiram como ferramentas essenciais para diferenciar produtos e incentivar o consumo, associando os bens a valores emocionais e sociais.

Conforme apontado na obra “Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria” (2008), do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), a publicidade passou a atuar sobre o imaginário do consumidor, promovendo produtos não apenas pela utilidade, mas também pelos símbolos de status[2] e sucesso que representavam. Isso transformou o consumo, que deixou de ser apenas uma resposta a necessidades, tornando-se um meio de alcançar aspirações sociais e pessoais.

Assim, a publicidade e o marketing[3] garantiram a continuidade do ciclo de consumo iniciado pela Revolução Industrial, moldando os desejos dos consumidores e sustentando a demanda por novas produções, essenciais para a manutenção do sistema econômico em expansão.

 

  1. Impactos na Sociedade Contemporânea

4.1. Influência do Consumismo nas Relações Sociais e Comportamento Individual

O consumismo afeta as relações sociais e o comportamento das pessoas. Jean Baudrillard (1929-2007) na sua obra “A sociedade de consumo” (2008), observa que, na sociedade atual, consumimos não apenas produtos, mas os significados que eles representam. Os bens adquiridos tornam-se símbolos de status e identidade, moldando como nos vemos e como somos vistos. O poder de compra passa a ser um reflexo do valor pessoal, impactando as relações humanas.

Esse cenário pode aumentar desigualdades e gerar um ciclo de insatisfação já que, conforme o filósofo francês Gilles Lipovetsky (1944-) em “A felicidade paradoxal: Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo” (2007), o desejo de consumir leva à busca por aprovação, onde o valor de uma pessoa é medido pelo que possui, e não pelo que é. Isso torna as relações mais superficiais e focadas no status.

Além disso, o consumismo altera o comportamento, oferecendo uma solução temporária para problemas emocionais. Comprar pode aliviar a ansiedade, mas a satisfação é passageira, levando à necessidade de consumir mais somado a alienação[4], que desviam a atenção de valores duradouros, como relacionamentos e desenvolvimento pessoal.

 

4.2. Cultura do “Ter” e o Incentivo ao Consumo

A cultura do “ter”, segundo Bauman, reflete uma sociedade onde felicidade e valor social são obtidos pela compra de produtos. Nessa lógica, possuir bens torna-se mais importante do que ser alguém e a satisfação é buscada através do consumo. A publicidade reforça essa ideia ao associar felicidade a novos produtos.

O consumo é intensificado pela obsolescência programada[5], que incentiva a compra de novos itens, mesmo que os antigos ainda funcionem. Para Lipovetsky, isso é parte da “hipermodernidade”, em que o temporário se torna mais valioso que o duradouro, gerando insatisfação constante.

Essa cultura também promove uma relação superficial com os bens, comprados pelo valor simbólico e não pela utilidade. O consumo torna-se uma forma de auto expressão e posicionamento social, agravando desigualdades e excluindo aqueles que não podem acompanhar essa lógica.

Em suma, a Revolução Industrial, ao transformar os modos de consumo, plantou as sementes do consumismo moderno que permeiam a sociedade contemporânea. O desenvolvimento das técnicas industriais, aliado à evolução da publicidade e do marketing, criou uma cultura voltada para o consumo desenfreado. Essa mudança não só alterou as relações sociais, como também moldou comportamentos individuais, incentivando uma busca incessante por novos produtos e experiências. Ao mesmo tempo, a cultura do “ter” sobrepôs-se à do “ser”, reforçando um ciclo de aquisição constante, muitas vezes desconectado de necessidades reais.

Assim, o legado da Revolução Industrial vai além do progresso tecnológico, estendendo-se às dinâmicas sociais e às implicações profundas no comportamento humano e no modelo econômico global.

 

Notas de Rodapé

[1] O conceito de “sociedade de consumo” está ligado à economia de mercado, a qual encontra o equilíbrio entre oferta e demanda, através da livre circulação de capital.

[2] Status refere-se à posição ou condição de uma pessoa ou coisa em relação a outros em um determinado contexto.

[3] Marketing é a atividade que promove produtos e serviços para gerar interesse e satisfazer as necessidades dos consumidores.

[4] A alienação é o distanciamento de si, dos outros ou de valores importantes.

[5] A obsolescência programada é a criação de produtos com vida útil curta para acelerar sua substituição.

 

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. São Paulo: Edições 70, 2008.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

UGARTE, Maria Cecília. O CORPO UTILITÁRIO: Da revolução industrial à revolução da informação. Universidade Estadual de Londrina. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237356122_O_CORPO_UTILITARIO_Da_revolucao_industrial_a_revolucao_da_informacao . Acesso em: 11 de out. 2024.

MANANGÃO, Carmen Limoeiro. O contexto da Revolução Industrial. Educação Pública,  2007. Disponível em: <https://educacaopublica.cecierj.edu.br/#:~:text=A%20Revolu%C3%A7%C3%A3o%20Industrial%20foi%20um,o%2%200surgimento%20do%20capitalismo%20industrial>. Acesso em: 11 de out. 2024.