Hoje, dia 22
(Em 22/06/2012. Salvador, BA. Movimento Passe Livre que antecedeu as Jornadas de Junho)
A coisa foi doida. Subi pro Campo Grande, pronto para enfrentar o quarto de maratona que seria o percurso de lá até o Iguatemi. No Campo Grande, tranquilidade. Sentado num banco, conversava tranquilamente com um senhor sobre a situação social e respondi a uma pesquisadora que me abordou com algumas perguntas sobre as manifestações e outras questões.
-Para você, o que motiva essa situação?
-A carestia, a corrupção, o desrespeito ao público, à prioridade dada a ganhos privados no lugar do bem social.
-Você apoia as manifestações e suas consequências?
-Digamos que sim.
-Apoia muito, ou mais ou menos?
-Apoio a manifestação e suas demandas, mas não as depredações, apesar de compreender a situação dos que as fazem.
-Então, você apoia bastante.
-Sim, pode ser.
-Como avalia o governo de Dilma?
-Acho razoável.
-Razoável puxando para o bom ou para o ruim?
-Razoável para baixo.
-Marcarei regular-ruim.
-Tudo bem.
-Você é contra o sistema do governo?
-Esse é o governo legítimo, mesmo que insuficiente.
-Votou em qual candidato para o primeiro turno? Qual votaria para essas eleições?
-..................................
E por aí foram às perguntas. Ao final, a mulher me disse que queria achar jovens de classe social mais baixa e sem Educação Superior para poder ter as amostras variadas pedidas por sua empresa. Falei a ela que seria algo difícil, no meio onde estávamos. Ela foi embora junto com sua supervisora, e voltei a conversar com o senhor, continuando o assunto que tínhamos começado. Após algum tempo, minha namorada apareceu para me buscar, para que nós nos juntássemos aos seus colegas que já estavam concentrados na entrada do Campo Grande.
Após algumas horas de caminhada, acabamos chegando ao Iguatemi. Sentamos todos em grupos. Cantaram algumas vezes o Hino Nacional. Creio que aguardávamos formar a assembleia para decidir como realizar o passe livre na transbordo. Desde antes de chegarmos até ali, havia gente atirando rojões para o alto. Alguém deixou um dos rojões cair no chão, no meio de alguns grupos sentados, que correram vaiando quem cometeu aquela tolice. Depois voltaram a sentar. Algum tempo se passou e soaram três estouros. No primeiro, comentei:
-Essa não é daqui.
Alguém respondeu:
-Não é daqui o quê, Nicolas. Isso aí foi outro besta que...
No segundo e terceiro estouros, se espalhou fumaça branca por toda a área e ficou bem claro que a coisa tinha começado. Juntei-me à minha namorada e a um colega dela, que tinha se preparado com um óculos de natação e uma máscara de tecido. Corremos todos para a calçada, entre as duas pistas, diante do Bradesco. O presidente do grêmio estudantil de minha namorada decidiu sair com duas meninas que estavam indo embora.
-Vou vazar man. Não dá reggae. Não ficarei até o fim para apenas ver todo mundo ser dispersado.
Ele tinha razão. Os grupos principais tinham sumido no meio da confusão. O máximo que rolaria para ele, como acabou rolando para mim e minha namorada depois, seria pimenta na cara e uma corrida de graça, como ela já tinha levado em frente à Polinter na quarta. Foi embora, levando as meninas em segurança. Minha namorada quis ficar.
-Vou ficar. Não vou abandonar as pessoas se dando mal aqui.
Quis ficar também. Não que achasse que nossa mera presença fosse impedir muita gente de tomar borrachada e passar pelo baculejo depois, mas entendi o espírito. O colega dos óculos de natação falou:
-Revolução é isso. É o confronto, cara.
Eu, reformista preguiçoso por filosofia e inclinação, tive vontade de descer para ver como essa revolução seria e fui também. Enquanto decidíamos se ficaríamos e o presidente do grêmio partia, vidros e placas de todos os lados eram derrubados e quebrados. Alguém estava dando uns bons chutes e pedradas na portaria do Bradesco, até os vidros partirem. Corremos para trás. Eu puxei uma das garrafas de vinagre que tinha na mochila, mostrando-a para o alto, enquanto um helicóptero passava direto por nós com seu farol apontando para baixo:
-Vinagre, vinagre, vinagre aqui geeeeeeente!
Minha namorada pediu para eu passar um pouco na camisa dela, em dois panos, e uma mulher me passou um pano que embebebi também. O garoto dos óculos de natação tinha sua própria solução de vinagre e água numa uisqueira. Fomos voltando de mãos dadas, com medo de nos perdemos um dos outros, mas também andando muito lentamente por causa disso. Corremos para o meio da pista, onde deu para ver que a Choque já tinha tomado os dois sentidos e se aproximava devagar, fechando a rua. Corremos para o outro lado, atravessando uma ponte e subindo por uma vala, seguindo um monte de pessoas que tinham ainda menos noção do local do que nós mesmos.
-Aqui é tudo fechado! Tem um hospital, vem carros dali, mas a rua é fechada, é fechada, é fechada, velho!
Estávamos prestes a ser pinçados entre duas formações da Choque, e fechados entre uma rua fechada cheia de entradas para outras ruas fechadas ou estacionamentos de empresas, e o esgoto antes da rua do Iguatemi. Demos meia volta. Sugeri:
-Vamos pular o esgoto, é raso, dá!
-Calma, calma, vamos achar outro meio!
O bom senso do colega de óculos de natação prevaleceu, e visualizamos outra ponte, a meio minuto de ser tomada pela Choque. Começamos a correr para lá, com minha namorada atrás de mim e o colega dos óculos de natação atrás dela. Ela teve um princípio de choro que não entendi, e eu comecei a me lembrar de uma sopa de gengibre que meu pai tinha feito e nem ele conseguiu comer. Mas, não era uma simples lembrança. Era gás de efeito moral, lançado a poucos metros de onde estávamos, sendo empurrado pelo vento em nossa direção. Descemos com minha namorada já chorando muito. No desespero, ela se jogou no chão, tirando a mochila.
-Água, preciso de água! Água! Água meu Deus!
Eu, correndo mais a frente, queria continuar prosseguindo. Tive de voltar, enquanto o colega dos óculos de natação tentava ajudá-la a abrir a mochila e pegar a garrafa. Má decisão: estávamos num lugar baixo, ela abaixada, num lugar cheio de gás pesado que caía antes de se dispersar. Comecei a lacrimejar ainda mais, e a salivar incontrolavelmente, cuspindo freneticamente para tentar tirar de minha boca aquela água ácida que ficava se acumulando o tempo todo. Um pouco mais daquilo, e eu estaria cuspindo e tossindo que nem um asmático em crise respiratória. Do outro lado da rua, duas figuras com camisas servindo de máscara acenaram para mim, quando já não estava aguentando mais ficar ali, e já ia correr com a namorada e o colega ou sozinho, após ela conseguir pegar a água.
-Calma aê, velho! Tamo chegando!
Eles vieram e me puxaram, enquanto o colega dos óculos de natação vinha segurando minha namorada, atrás. Chegamos ao outro lado da rua, perto do Bradesco. Estava com o coração a mil, e minha namorada não muito melhor. Tentei cheirar um dos panos com vinagre, e passar um para ela. Um dos mascarados falou:
-Faça isso não velho, só faz piorar. Siga com a gente mais a frente. Estamos preparados!
Adiante, no caminho livre, havia um morro com grama verde, com trilhas levando para o alto, onde haviam alguns condomínios. Já tinham várias pessoas subindo, e algumas paradas nos corrimões, contemplando a movimentação que ocorria embaixo e esperando alguns amigos que ainda subiam. Estávamos no alto de uma ladeira, com o colega de óculos de natação meio que sem saber onde estávamos e para onde iríamos, mas as ruas ali seguiam um plano simples. Ao nosso lado, dois garotos com roupas estilo hip hop e outros com vestimenta punk estavam indecisos quanto a descer. Com razão. A polícia provavelmente teria fechado as poucas saídas que havia nas ruas abaixo, para fazer pente fino nos manifestantes dispersos que estivessem de saída. Ficamos receosos: na quinta anterior, as poucas pessoas mortas e feridas foram pegas justamente nos momentos finais de manifestação, em ruas fechadas e com todos já dispersos. Meu irmão ligou:
-Vlad, como tá a coisa aí cara?
-Tá tudo bem, Leon. Acabou tudo aqui. Tamo voltando. Ainda tá no Rio Vermelho?
-Sim.
Ele tinha ligado pouco antes dizendo que queria vir pro Iguatemi depois de ver o jogo, e eu tinha falado para ele não ir e saltar no ponto anterior que desse. Ele saltou no Largo da Dinha, ponto de encontro entre ele e os amigos, alguns dos quais poderiam estar voltando da manifestação. Fomos descendo a ladeira. Um dos garotos que ia junto conosco pegou uma pedra na rua, pensando poder se defender de alguma coisa com ela. Pelo modo de vestir e de andar, reconhecemos nele um garoto de favela. O colega dos óculos de natação fez todos pararem e recomendou que removessem as máscaras e jogassem fora os objetos que tivessem em mãos, para não serem vistos como hostis e chamados para o baculejo. A tempo: quando viramos a esquina e pudemos ver o final da ladeira, percebemos luzes da polícia numa esquina mais a frente, vigiando as saídas de todas as ruas que davam na praça para onde estávamos descendo. Pedi o celular de minha namorada, e liguei para meu irmão.
-Vlad, me ligou de novo. Tá tudo bem? -
-Olha Leon, por agora tá tudo bem sim, mas eu vou por o celular no bolso, e quero que você fique na linha. Fique na linha, entendeu? Estou com minha namorada, um colega dela, e outras pessoas descendo uma ladeira atrás do Iguatemi, indo para a Paulo XI. Fique na linha.
-Certo Vlad.
Disse isso e coloquei o celular dela num dos meus bolsos da frente, enquanto o meu estava no de trás. O colega dos óculos de natação falou:
-Acho que dá pra falar com os policiais e pedir direções. É melhor, não levantar suspeitas.
Não havia nenhuma suspeita a levantar: éramos três jovens com mochilas vindos da direção da manifestação, com alguns restos de tinta verde e amarela ainda sobre o corpo. Paramos em frente aos carros de polícia. Havia alguns policiais e alguns jovens ajoelhados em frente à parede, com dois policiais para cada um, gritando bastante enquanto remexiam suas mochilas. Os jovens eram quase tão marrons quanto o uniforme dos policiais e vestiam roupas hip hop ou punk. O colega de óculos de natação era branco, eu sou aquele tipo de cara que na Bahia é considerado branco e minha namorada, mesmo não sendo branca, aparentava ser uma estudante de escola ou universidade federal, o que de fato era. O colega de óculos de natação já tinha há muito removido os óculos de natação e a máscara de pintor embebida em vinagre e nenhum de nós vestia nada hip hop ou punk. Ele pediu educadamente informações ao policial que estava mais próximo da rua, e tão educadamente quanto, o policial indicou o caminho. Na esquina adiante, encontramos uma garota de camisa branca, parada, chorando.
-São seus colegas que estão ali? – O colega de óculos de natação perguntou.
-São, cara. Eles pegaram minha mochila, remexeram tudo, jogaram as coisas no chão e agora tão com meus colegas – dizia ela, soluçando e tentando não falar alto ao mesmo tempo. – Vazem daqui pra não sobrar pra vocês, caras. Vão embora, eu fico bem.
Dando outra rápida olhada no lugar onde estavam os policiais e os colegas dela, achamos conveniente ouvir o conselho e seguimos. Falei ao meu irmão que estava tudo bem, desliguei o celular de minha namorada e o devolvi a ela. Pedindo mais orientações numa farmácia onde os funcionários nos olharam com medo, chegamos em pouco mais de dez minutos à Paulo XI. Eu e minha namorada ainda andávamos meio vacilantes, sob os efeitos finais do lacrimogêneo (que por arder muito, ainda estávamos chamando de “a pimenta”). O colega dos óculos de natação comentou:
.
-Chegamos, olha a Paulo aí. – disse ele.
Também reconheci o final da Paulo XI, onde tinha trabalhado por algum tempo.
-É aí, achou a coisa legal? – ele me perguntou, quando atravessamos para a banca de revista que ficava no começo da rua.
-Sim, eu gostei. Acho construtivo movimentos como esses.
-Eu estive em algumas assembleias. Cheguei a conversar com um cara que me disse ter participado dos incêndios de ônibus na última quinta. Eles (os que a TV e o governo chamam de vândalos, e o pessoal dos partidos de “voluntaristas desorganizados” quando se opunham a eles em reuniões, ou de “fascistas” quando tomavam bandeiras deles nas passeatas) são cabeça. As pessoas dizem que eles só querem agir para dar vazão a sentimentos reprimidos, mas na verdade, eles pensam muito. Tem ideias muito profundas e não gostam da corrupção do governo de hoje, nem da burocracia que percebem nos movimentos sociais. Por isso são criticados por todos. Vai ter assembleia amanhã, na rua X (não lembro mais a rua que ele citou), a gente pode conhecer alguns deles, vai ser legal. Quer vir?
-Não, obrigado. Não viajo muito em assembleias. Já trollei pela internet ou pessoalmente metade das pessoas que costumam frequentá-las, de todos os partidos, tendências partidárias, e coletivos existentes. Não costumo ser recebido com confete quando apareço nelas. – Minha namorada, que acompanhava de longe minhas malucagens na internet, riu enquanto o colega de óculos de natação ficou sem compreender. Tinha me conhecido naquele dia.
-O que achou da repressão?
-Sei lá cara. Acho que a polícia fez... sei lá, o trabalho deles.
Dizia isso pensando no fato de que, se fosse há alguns anos, na época da invasão da UFBA, o tempo que nós ficamos parados tentando espirrar o lacrimogêneo para fora seria mais que suficiente para recebermos uma carga de fantadas e de chutes, enquanto no Iguatemi, a Choque havia apenas se aproximado a tempo do gás terminar de afastar todo mundo e eles liberarem a rua. Saltei no Rio Vermelho e encontrei meu irmão. Falei a ele que estava tudo bem. Ele, que estava com fome, sugeriu comermos um cachorro-quente num restaurante ali na praça, que servia hot-dogs no estilo paulista, bem grandes, com purê de batata e vários temperos. Enquanto comíamos nossos cachorros-quentes, encontramos um conhecido nosso, que tinha feito curso de teatro com nossa mãe e estivera no Iguatemi. Ele sentou um tempo com a gente, e perguntou como foram as coisas para mim.
-Bizarro, man. A esquerda vive brigando com o pessoal do Anonymous. Havia lá gente da esquerda e algumas pessoas com máscara do Guy Fawkes, com bandeiras e megafones. Quando caiu a terceira bomba, não vi mais bandeiras e megafones de ninguém. Quem estava lá pra me salvar foram os anarco-punks, que eles adoram chamar de fascistas pela internet. Um rebanho de panacas, esses caras – vociferei, como um torcedor de futebol com raiva da desunião do time.
-Existem variados tipos de reacionarismo. Há também o reacionarismo de esquerda – falou, calmamente, o colega do curso de teatro de minha mãe. – Um dos tipos de coisa interessante que a gente encontra nesses tipos de eventos. Eu mesmo recolhi isso.
Pôs na mesa algumas sobras de cápsulas de borracha e uma de lacrimogêneo, ainda cheirando, que tinha recolhido enquanto todo mundo fugia descontroladamente. As de borracha tinham variadas formas. Algumas eram bolinhas pequenas, funcionando como uma espingarda regular, e havia também dois formatos maiores, que eram um tipo de munição, que mais tarde eu aprendi se chamar de “balote”.
Tinham sido atiradas, provavelmente, contra as pessoas que insistiram em ficar, para terminar de dispersá-las. Voltamos para casa, onde minha mãe nos esperava, com o jantar. Naveguei um pouco na internet, vi o de costume. Pessoas que algumas horas depois da manifestação ter acabado, já tinham postado as fotos com sua participação na passeata, destacando bem os cartazes e bandeiras que levaram e outras que já estavam postando indiretas e acusações contra seus adversários políticos dentro do movimento. Vi um post comunicando que havia gente presa em várias delegacias sob “forte ameaça de sofrerem violências e precisando urgentemente da ajuda de advogados voluntários para darem a elas habeas corpus”.
Lembrei-me do pessoal pego no baculejo, horas antes. Podiam estar entre aquelas pessoas presas e “sob ameaça de sofrerem violências”, enquanto a politicagem de Facebook prosseguia como sempre. Nenhuma igualdade, mesmo dentro dos movimentos por menos desigualdade. Me chamou atenção uma charge de Latuff, que tinha começado a rodar nas timelines. Mostrava o ponto de vista de um policial, no estilo Counter Strike, atirando em dois alvos diferentes: um era um garoto branco com uma bandeira vermelha, protestando no meio da cidade, que recebia nas costas um tiro de borracha que ricocheteava para trás; o outro, um garoto negro, na favela, que recebia um tiro, que atravessava suas costas e saia pelo peito, espalhando sangue vermelho, como a bandeira do garoto branco. Não viajava muito em Latuff e fazia com as postagens contendo charges dele o mesmo que fazia com as postagens contendo tirinhas da Mafalda, mas aquela dizia perfeitamente o que eu tinha percebido e pensava naquele momento, não sabia o que dizer. Na segunda-feira posterior, quando a presidenta Dilma anunciou a intenção de realizar reformas, lembrei-me de minhas pesquisas sobre o premiê Gorbachev. Procurei no Google uma imagem na qual ele parecia estar fazendo “joinha” e postei,
“Parabéns dona. Está no caminho certo.”
Depois, querendo ser profético, copiei e colei no meu mural uma frase do Gorby:
“A História pune aqueles que chegam tarde.”
E dei-me por considerado ter feito uma boa participação na História do meu país.
Figura 1 - A imagem descreve um grupo de jovens marchando em Salvador, no contexto d o Movimento Passe Livre.
Fonte: Autoria própria, 2012.
Figura 2 - A imagem descreve uma das passeatas nacionais do Passe Livre. Pelo que indicam as placas, essa foto é de Porto Alegre.
Fonte: Autoria desconhecida, 2012.